O Rei dos Dedos
04/11/2010 por Sonia CostaCrônicas
(Imagens Google)
Moacyr Scliar escreveu esta crônica em alusão a um fato que aconteceu em 2004, quando o Comandante da American Airlines, ao ser fichado no Aeroporto de São Paulo, posou com o dedo médio em riste. O delegado Francisco Baltazar da Silva afirmou ser “um gesto internacionalmente obsceno”.
O REI DOS DEDOS (Moacyr Scliar)
“Sim, nós pertencemos todos à mesma mão, ao mesmo corpo. Sim, nós temos basicamente a mesma funço, nós cinco. Sim, nós somos todos iguais. Mas alguns, é preciso dizer, são mais iguais. Alguém precisa se destacar, alguém precisa se impor, alguém precisa mandar, alguém precisa dizer ao resto da corja como proceder. E agora ficou claro a quem deve caber esse papel, esse posto, esse título.
Você, Polegar, não podia ter essa aspiração. Para começar, você é pequeno, tão pequeno que até deu o nome para aquele personagem de um a historia infantil, O Pequeno Polegar. Além de pequeno, você é humilde. Você é sempre o escolhido para dar a impressão digital. Se um analfabeto precisa assinar um documento, passam um pouco de tinta em você e fazem com que você cumpra esse desagradável serviço. Ou seja, sua existência se traduz nisso, em uma impressão.
Você Mindinho, é pior ainda. O Polegar é ao menos grosso; você é fininho, delicado. No passado você servia para indicar aristocracia; aquelas pessoas elegantes, que tomavam chá com você elevado no ar, lembra? Isso passou, nem essa função você tem mais. Você é completamente inútil, Mindinho. Inútil e fraco. Você não serve para o nosso mundo.
Você, Anular, é o símbolo da submissão. Como seu nome diz, você serve para portar o anel. Você mostra que um homem, ou uma mulher, são casados. Com isso, você tolhe a liberdade deles, você impede que possam viver grandes e excitantes aventuras. Você é um moralista retrógrado, Anular. Pior, você está com os dias contados, em primeiro lugar porque muita gente não casa mais, e em segundo, porque ninguém mais quer usar aliança.
A você, Indicador, devo certo respeito. Reconheço que você seria o único a postular alguma liderança. Porque você tem uma função importante: você aponta, você indica, você acusa. Em muitas circunstâncias você é conhecido como Dedo-Duro e isso, para mim, é uma distinção. Você é temido, Indicador, e no nosso mundo só sobrevive quem é temido.
Mas você, Indicador, não pode pretender estar à minha altura. Nem você, nem os outros. Para começar, estou numa posição privilegiada, sou o dedo central. E sou o maior dedo. Se alguma dúvida ainda existia em torno da minha liderança, ficou definitivamente afastada neste caso do piloto americano. Esse homem pensa que mostrou o dedo. Está enganado. Fui eu quem assumi a iniciativa. Independente da vontade dele, adiantei-me, elevei-me, posei para os fotógrafos. Foi o meu momento de glória. Mostrei quem está por cima. Coloquei os desenvolvidos no seu devido lugar. ‘Up yours’, eu disse, e esta é uma linguagem que todo mundo entende, que tem de entender se quiser viver no meu mundo. Curvem-se diante de mim, dedos. Eu sou o maioral, eu sou o chefe, eu sou o rei de vocês, eu sou o Rei dos Dedos, eu sou o Rei do Mundo.”
(Fonte: Folha Cotidiano de 19 de janeiro de 2004)Apesar dessa crônica ter sido escrita há 6 anos atrás, ela ainda se mantém contextualizada, infelizmente. Isto porque temos presenciado um inversão de valores a nível internacional. O que mais lamentamos são os valores representados pelo Anular, substituídos pelo Médio. Essa substituição comprova a deterioração da família e consequentemente da moralidade e da ética social. Ainda é tempo de resgatarmos os bons costumes de respeito aos nossos semelhantes.
Postado por Sonia Valerio da Costa Em 04/011/2010






























novembro 6th, 2010 at 13:42
Olá Sonia querida!
Quando estudamos comunicação, aprendemos que as mãos tem um importante papel em reforçar as mensagens que passamos. Mãos agitadas, dedos apontados, mãos fechadas…tudo simboliza e, algumas vezes, caracteriza a pessoa. O que me incomoda (acho que já “falamos” sobre isso) é o dedo que aponta, acusa, discrimina, rotula… Inevitavelmente usamos as mãos para intensificar nossos “recados”. Eu prefiro usá-las para escrever o que sinto e penso…o que também pode ser uma forma de agradar ou agredir.
Grande beijo,
Jackie
novembro 6th, 2010 at 15:25
Olá Jackie
Você tem toda razão. Qualquer forma de expressão, até mesmo a escrita pode ser motivo de agressão, mesmo que não seja intencionalmente. A questão é como a pessoa interpreta nossa posição.
Mas quero me reportar ao artigo que você escreveu em seu Blog, sobre a verdade. Dificilmente as pessoas vão entender a nossa verdade de forma pacífica. Importante é que estejamos com a nossa consciencia tranquila.
Obrigada por comentar.
Abraços.
Sonia Costa
novembro 6th, 2010 at 19:54
Minha querida amiga Sonia, boa noite!!!
Que bela crônica de Moacyr Scliar, bem atual e verdadeira, infelizmente!!!
O mundo perde em conceito e os que se acham poderosos subestimam os demais… precisamos resgatar os valores familiares, morais e éticos, caso contrário acabaremos em um mundo cruel e medonho, o mundo das trevas…
Parabéns pela excelente crônica, adorei minha amiga!!!
Grande abraço e muita paz!!!
novembro 6th, 2010 at 23:14
Olá Eduardo,
Agradeço seu comentário de apoio ao texto publicado. Temos realmente visto uma inversão de valores sem precedentes, chegando até mesmo à obscenidade por parte de autoridades que deveriam nos dar o exemplo do que é a verdadeira postura ética. Eles não respeitam nem a si mesmos nem aos outros; estão apenas incentivando a libertinagem.
Abraços.
Sonia Costa